• Lilian Quatrocchi

A ERA DA (DES)ATENÇÃO



Lendo o “O Poder do Agora”, de Eckhart Tolle, me inspirei no seguinte desejo: um dia quero me surpreender sorrindo para a voz que existe dentro da minha cabeça, como o ato de sorrir para as travessuras de uma criança. Isso vai significar que eu não estarei mais levando tão a sério o que se passa na minha mente, pois eu não dependerei mais dela. Será libertador.


Tenho percebido a grande dificuldade que a maioria das pessoas, e infelizmente, além dos adultos, incluo as crianças em idade escolar, tem para conseguir ficar no vazio de vez em quando. O mundo está tão repleto de estímulos o tempo inteiro que nos cobramos conseguir ter atenção para todos eles. Nossa sociedade parece nos forçar à distração disfarçada de atenção. A principal força que move a economia global é a nossa atenção e as maiores empresas do mundo têm um plano robusto para obtê-la. Nos restaurantes, temos uma televisão na parede ou um celular nas mãos que nos roubam a atenção da pessoa que está à nossa frente. Na própria tela do celular, enquanto se tem atenção em algo, surgem novas notificações disputando nossa atenção dentro de um mesmo espaço. A pandemia nos trouxe o home-office, e com ele as reuniões virtuais, pessoas do outro lado da tela que você não sabe se realmente estão com a atenção focada no que você está falando e apresentando ou se estão verificando seus novos e-mails e mensagens na própria tela em que sua imagem está. Hoje falamos com mini telas que muitas vezes possuem apenas um nome, às vezes uma foto, e raras as vezes, uma pessoa realmente focada e interessada no conteúdo de forma mais profunda e completa. Hoje aceleramos mensagens de voz, para que possamos dar conta de fazer mais e mais com o tempo que temos.


De tantas informações e necessidades de estarmos “antenados”, na verdade vejo que hoje vivemos na era da desatenção. Fazemos muitas coisas ao mesmo tempo, porém quase todas de maneira superficial e descompromissada. Não ter atenção, foco ou concentração é também não ter cuidado, carinho e zelo. É não cuidar do que está à sua volta, e é não cuidar de si mesmo também. Justificamos algumas falhas devido à desatenção por termos muitas tarefas simultâneas e prioritárias. Na verdade, essa distração não justifica nada, ela apenas nos condena.


Fico pensando sobre quais os exemplos que estamos dando para as pessoas que nos observam como exemplos. Quais os exemplos que eu, como líder, estou dando para os times? Quais os exemplos que eu, como mãe, estou dando para meus filhos? Como evoluir, dia após dia, e conseguir melhorar estes exemplos mesmo dentro desta sociedade que nos exige tanta (des)atenção?


Eu já me senti, e ainda me sinto, muitas vezes, culpada por ter momentos em que não estou fazendo nada. O ócio me gera culpa. Me lembro muito bem do ócio que eu tinha quando era criança. Tanto ócio que acabava gerando tédio. O melhor disso tudo era que após esse momento, ócio e então tédio, eu sempre conseguia inventar a melhor brincadeira de todas! Depois do ócio, aparecia o momento da criatividade! Vejo que hoje não estamos nos dando o tempo necessário da criação. Pulamos a etapa do ócio. Ela nos gera culpa.


Perceber o quanto estamos envolvidos nesta situação e buscar práticas de atenção plena pode ser um bom caminho. Estar consciente de que nossa mente falha e vaga a cada nova ideia, pensamento, lembrança, planos para o futuro e na morte da bezerra já é um grande avanço. A maioria das pessoas não se dá conta de que suas mentes funcionam assim. As distrações comandam. As belas imagens das propagandas tomam conta. Praticar a atenção plena e profunda é se dar conta de que falhamos. É se dar conta de que precisamos voltar e fazer de novo, com cuidado, com zelo, com respeito a si e aos outros.


Para isso é necessário um ato de coragem, de consciência, de vontade. Dar meia volta e começar de novo. Dar os exemplos àqueles que nos seguem que podemos sim, produzir, vencer e agregar valor de verdade sem precisar dar conta de tudo de forma superficial, mas sim dar conta do que é o mais importante, com profundidade, consciência e amor.





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