• Rodrigo Falcão

Correndo sobre o bom e velho chão


Na última semana me dediquei a assistir o ótimo catálogo do diretor Iraniano Abbas Kiarostami disponível no Telecine e no Mubi. Kiarostami, falecido em 2016 é considerado o principal diretor de seu país e era muito diverso na escolha das temáticas abordadas em suas obras. Em “Onde fica a casa do meu amigo” (1987) um garotinho passa o filme todo percorrendo vilarejos pobres e rurais à procura da casa de um colega de classe, para devolver-lhe um caderno, pois sabia que, se não o fizesse, o professor lhe daria uma estrondosa bronca. Nos caminhos e andanças se depara com inúmeros percalços e presencia sofrimentos dos velhos e dos solitários.

O final, emociona e faz valer a difícil tarefa de assistir a um filme totalmente fora do padrão ocidental com que nos acostumamos. Em outro filme “Sabor da cereja” (1997), um homem transita por estradas desérticas e aborda pessoas com uma proposta inusitada: Enterrá-lo após seu suicídio, em troca de dinheiro. Não fica claro o porquê de sua decisão, e nem importa, pois embarcamos com ele nessa aventura um tanto bizarra, um tanto poética pelas montanhas do interior do Irã.

Um dos últimos trabalhos do diretor, Cópia Fiel (2010) com Juliette Binoche se passa na Toscana e é um extenso diálogo de um casal perambulando por museus e cidades históricas, em um formato parecidíssimo com a trilogia Antes do Amanhecer/Anoitecer de Linklater. Além do jogo romântico, a história trata da questão filosófica: O que é cópia e o que é original? Há algo, de fato, original? Uma cópia, pode ser tão bem feita que supere, o suposto original, e assim, deixaria de ser "a cópia"?


Mesmo com temáticas tão distintas, algo une os filmes: O movimento dos personagens, inquietos. Os diálogos longos e cotidianos, sempre em progressão durante uma busca.



É no encontro com as montanhas das aldeias ou pelas vielinhas da cidade antiga que os personagens se deparam com os acontecimentos inesperados. A inspiração parece somente estar aberta àqueles que se aventuram pelas andanças, o caminho é mais interessante que o ponto de chegada.


Nietzsche era um entusiasta das caminhadas como ferramenta para criação: “Sentar o menos possível, não acreditar em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação – quando também os músculos estiverem participando da festa. Todos os preconceitos vêm das vísceras... A vida sobre as nádegas é que é o verdadeiro pecado contra o espírito santo.”


No cinema de Kiarostami em vez de os cenários, como de costume , apenas emoldurarem os personagens e seus diálogos, ele têm posição de protagonismo: As pessoas estão só de passagem, perdidas de lá pra cá. Isso fica claro nas constantes quebras da quarta parede, quando o diretor lembra que os atores são só atores, mas as cidades, essas sim são de verdade, o que nos faz crer que as histórias contadas também devem ser.


Nós, humanos, vimos sempre correndo pelo bom e velho chão, com as mesmas questões existenciais, cada geração pensando que evoluiu em relação à anterior, mas a verdade é que, de tudo, o que realmente fica, é só o cenário. Só ele é real.




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