• José Roberto

A racionalidade a serviço da Terapia Holística

Atualizado: Jul 15



Fonte: Capa do Livro “Lembrar Escrever Esquecer – Jeanne Gagnebin”


O maior trunfo do pensamento Holístico e da prática terapêutica derivada do mesmo, é o fato de englobar toda e qualquer estrutura como proposta de intervenção junto ao seu paciente - seja essa intervenção feita através de técnicas consagradas como o Reiki e a Acupuntura, ou técnicas mais recentes como os processos de Access Consciousness®. A pratica terapêutica holística é um campo farto para quem gosta de experimentar e isso permite que dentro dela se trabalhe com epistemologias diferentes - algumas vezes até contrarias - transformando todas elas em ferramentas ao seu dispor. Para exemplificar trago uma referência histórica da Psicologia e sua gênese, que fundamentou sua epistemologia no pensamento filosófico clássico para criar sua metodologia, formas de intervir e por ai vai. Na Terapia Holística, isso tudo pode ser criado e recriado a cada contato com os pacientes, uma vez que sua epistemologia e forma de pensamento não são sistêmicos, seu método e suas intervenções derivam da concepção de unidade e do congregar entre as coisas, é intuitivo, não linear e não exige a razão nas coisas para dialogar com elas (como o pensamento filosófico clássico por exemplo). O ato de racionalizar é a capacidade humana de dar significado ao o que ocorre ao nosso entorno, dar a isso uma narrativa, ligar sentimentos e sensações para trazer cognição, gerar emoções e compor, assim, a forma individual de cada um de ver o mundo (epistemologia).


- Mas não é assim que funciona a Terapia Holística? -


A questão é que a prática Holística (assim como seu pensamento) dialoga diretamente com o sentir, o intuir e o perceber, ferramentas diferentes da racionalização quando se trata de caminhos que geram “visões de mundo”. Elas não são excludentes, mas, em um movimento desatento podem gerar interferências entre si. Então, a primeira questão seria perceber quando operar através da racionalização e, a partir disso, qual caminho seguir com seu paciente. Para exemplificar, trarei o pensamento histórico que aplicado sobre nós mesmos e a nossa história, pode ajudar a enxergar o que quero dizer. A a imagem deste artigo deriva do livro “Lembrar Escrever Esquecer”, este livro é justamente uma dessas pérolas em que podemos ver a racionalidade das coisas, aliada ao “fator humano”, trabalhar. O livro narra através do pensamento histórico, como as pessoas constroem esse ciclo de “uma visão de mundo” em seu tempo a partir de Estórias ainda vivas em seu entorno, é um exercício de como no âmbito da História as narrativas se criam a partir da necessidade daquele que as escreve.

Parte do uso da narrativa histórica é a premissa básica de que, a partir do seu pensamento, se estabelece e se legitima um poder, uma vez que poder e controle só podem operar a partir da verdade. A História é uma ferramenta para se estabelecer verdades, da existência e teorização de algo dando a isto um significado que será oficial, assim este algo ganha valor imbuído em si próprio. A relação da história com o discurso de poder e a importância de tal análise serve para ampliar as questões de como, durante determinado período, se observa o discurso de poder agindo e suas ramificações – como, por exemplo, a formação de um modelo de homem em função da história.

Existem alguns aspectos que devem ser levados em consideração para isso, o primeiro é observação da história trabalhando de forma dicotômica (em que se encontra imbuída de uma relação de poder), quando se produz um discurso de história oficial, em oposição às coisas que não figuram nela. Embora seja uma questão a muito debatida por historiadores, ela se torna pertinente aqui ao tecer dicotomias no seio cultural, que orientaram um discurso de formação o qual faz alusão também ao modelo de homem pretendido e criado pelo discurso histórico. O segundo ponto é o efeito colateral do esquecimento: este pode ser percebido ao se fazer uma leitura daquilo que o discurso oficial não expõe ao dizer que é algo; como explicação rápida, funciona mais ou menos como uma autoafirmação daquilo que se quer ser: eu quero ser corajoso, mas eu sou medroso, portanto, eu fico me repetindo que sou corajoso para me sentir dessa forma, mesmo que eu não acredite que eu seja. Por esse viés, o esquecimento se mostra consequência temporal daquilo que vai às sombras da história, quando um historiador decide não as dizer. Por fim, temos o anacronismo (anacronismo é dar significado a alguma coisa fora de seu tempo real não levando em consideração os valores e a moral do tempo em que aquilo nasceu - é um dos tabus do historiador) da relação, o qual se liga ao efeito do eterno “vir a ser” que torna um discurso histórico sempre atual; essa possibilidade se dá através dos recortes feitos pelo discurso de poder, para usar determinados eventos e características históricas a seu favor. É nesse ponto que a história se torna manipulável e faz com que os incautos abracem suas ilusões, ampliando assim a manutenção das relações.

Todos estes pontos se alimentam de forma a submeter a história ao discurso de poder. O esquadrinhamento da história sobre esse prisma trabalha, na realidade, aquilo que ela não diz, não o esquecimento que pode figurar como sua antítese, mas o seu motivo. Assim, o discurso oficial se torna obra categórica das relações de poder; é a produção da verdade social necessária à sua manutenção automática, é produzir ideias que constituíram oposição, ao se utilizar o discurso histórico. Cabe uma nota: a história como eventos postos em uma linha do tempo é o que se está pensando aqui, embora a história como ciência social contraste diretamente com a questão, uma vez que cabe ao historiador a validação de um discurso histórico. Dito isso, podemos observar o caminho de formação de uma História Oficial e de como ela elenca valores na formação do homem e serve ao discurso de poder. Esse caminho de construção pode ser utilizado dentro de qualquer lógica, a partir da racionalização, para se operar junto a um paciente e trabalhar suas questões.

Quero deixar uma última nota: há um tripé de forças ocultas aqui: o eu, o coletivo e o social (tudo que fora produzido e interaja em âmbito social, incluindo cultura). Esse tripé age diretamente sobre seu paciente em todas as ocasiões, sua capacidade de racionalizar os eventos históricos e sociais que o cercam ajudará diretamente a intervir junto ao seu paciente. As forças externas que operam em vocês serão as mesmas, porque o tempo em que vocês vivem também o é. Seria diferente se você estivesse trabalhando com um homem do século XIX por exemplo: aqui, estamos falando de pensamento e forma de intervir, não de linguagem e código aonde poderíamos colocar a cultura como um fator diferencial, desmembrando-a do “social” proposto mais acima; e aqui que se observa a questão do anacronismo, por exemplo.

Por fim uma vez que estamos falando de uma forma de pensar e de “visão de mundo” que definem o Eu, as coisas são mais “etéreas” e difíceis de se "afastar" para enxerga-las, assim, tenha em mente que a construção, a estrutura, a forma de pensar e as forças que agem sobre seu paciente, seguem um padrão que pode ter sido redigido pela lógica do pensamento histórico como foi colocado acima – e isso se aplica especialmente a você. O grande desafio é: e aí, o que você vai fazer com essa informação?



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