• Paloma Muniz

Como Viver uma Alma Imoral

Atualizado: Abr 1

Certa vez, em uma sessão de terapia, ouvi a seguinte frase:


“- Eu me sinto culpada, não posso trair o meu marido, isso é imoral! ”



Após essa frase, não consegui ouvir uma palavra sequer pronunciada pela paciente. Em fração de segundos, enquanto eu a olhava verborrágica, deixei meu pensamento sangrar para outro tempo e espaço. Não é incomum esse deslocamento acontecer na terapia, como se meus ouvidos estreitassem para qualquer distração e filtrasse a essência do que é importante. Quem na minha paciente não pode sucumbir ao desejo de trair?




Foto por Nathália Miranda


Aqui o importante não é a queixa da paciente, mas sim, quem nela deseja e suplica pela imoralidade. Naquela fração de segundos me vi sentada à plateia de “A Alma Imoral”, texto adaptado por Clarice Niskier para o teatro a partir do livro homônimo do Rabino Nilton Bonder, de perturbadoras provocações acerca da moral humana - já assisti essa peça três vezes, e saí profundamente impactada em cada uma delas.


Enquanto ela narrava sua solidão, suas ausências, suas intimidades, eu evocava à memória a nudez de Clarice no palco, dizendo: “- Haverá maior solidão que a ausência de si? “


Por vezes, a solidão é o único lugar onde podemos expandir nosso éthos. Passei quase metade da sessão sustentando um silêncio que, para minha paciente, parecia ser insuportável. Mesmo ela sendo manifestamente competente em deixar fluir seu horror por desejar sexualmente outro homem, observei a tensão em sua postura. Notei pés cruzados, as mãos, clericalmente espremidas entre as coxas, como se fizesse um movimento interfemural para se fechar.


Eu não me encontrava mais no consultório, ora uma visão em paralaxe, estava na imagem que ela me trouxe, na sensação de angústia e na tensão que a moralidade causava a si.


Enquanto a queixa trazida era a solidão à dois, um casamento sustentado pelo delírio de sucesso em fotos ”pseudo felizes” no Instagram, aquela mulher na minha frente estava em sofrimento profundo.

Lhe faltava o sentido de não poder existir em si mesma, de não poder acolher e vivenciar seus próprios desejos em detrimento do desejo de outrem. Este outro, uma projetação de si, no símbolo da esposa fiel. Uma versão castradora que, internamente, a proibia de assumir o próprio desejo.

A moral transita entre realidade e desejo. Como nos trouxeram Deleuze e Guattari (1972), somos máquinas desejantes:


“O que define precisamente as máquinas desejantes é o seu poder de conexão ao infinito, em todos os sentidos e em todas as direções”

– O Anti-Édipo, p. 514


O desejo se faz, se expande, no infinito inconsciente. Quando o desejo cresce e transborda, ele cria, e toda criação acontece no real. O inconsciente, quando produtivo, se utiliza da matéria para sua criação. Toda produção inconsciente (fantasias, sonhos, sintomas) nos atravessa. Sentimos o desejo fluir para além das fronteiras do ego, por nossos poros e ultrapassando nossa pele. O desejo nos move, sem isso paramos, em excesso, nós criamos dificuldades para nos adaptar no mundo, adoecemos nossa persona.


O desejo de trair, visto como doença pela paciente, realiza-se na sexualidade reprimida, no desejo de transgredir, trair o marido. O inconsciente produz caminhos que se apresentam como sintoma, e este sintoma surge como uma tentativa de auto cura, como uma forma daquela mulher ser fiel a ela mesma.

O desejo traduzido em gestos, na tensão das pernas cruzadas, nas mãos bloqueando o acesso a sua intimidade, me disse muito mais que suas palavras. Parafraseando uma fala de Clarice, em uma das cenas da peça:


“Muitas vezes, um conflito é na verdade um convite, ou até mesmo um teste para sabermos de nós mesmas de que lado estamos. Muitas vezes para eu servir a tradição, é necessário que eu traia a minha própria alma, assim como, para eu servir a minha alma, o caminho é trair a tradição. “


A alma é imoral.


Nos vemos semana que vem.



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