• Jessica Olivieri

Estamos todos transtornados?


Foto: fepo.com.br


- Miga, amanhã, depois desse japa, vai rolar um detox, né?

- Acabei de aumentar meu jejum intermitente para 14 horas, tá mara.

- Você viu a Dani? Ela deu uma engordadinha, hein?

- Gabi, se eu sair da dieta, você pode vazar minhas nudes no Insta, viu?

- Tô tomando uns remedinhos pra emagrecer show. Vou te passar o contato do meu médico.

- Comecei uma dietinha zero carbs. Só como proteína e, de manhã, uma fruta.

- Hoje malhei 2 horas! Tá pago! Posso jantar tranquilo.

- Quero postar essa foto de biquíni. Vê se eu tô gorda com esse filtro?


Quantas falas parecidas com essas não ouvimos todos os dias? Até que ponto não normalizamos esses comportamentos e ideias? Que mundo é esse em que vivemos onde transtornos alimentares tornaram-se lugar comum?


Seis dessas frases comumente ditas e ouvidas demonstram atitudes condizentes com o transtorno alimentar da bulimia. Muitos, equivocadamente, reconhecem a bulimia apenas em pessoas que vomitam após refeições. Contudo, esse transtorno alimentar também está presente em pessoas que após episódios de compulsão alimentar, têm atitudes compensatórias de restrição: aquelas dietas de sucos após um final de semana de excessos, exagero de atividades físicas, jejuns, laxantes, entre outras.


Os ideais da anorexia também estão presentes em muitas destas frases: imagem corporal distorcida, constante comparação entre corpos, culto pela magreza e estética e tantas táticas e ferramentas utilizadas para alcançar o corpo perfeito (magro).


Carregamos no bolso vitrines dos corpos perfeitos. As redes sociais viraram um prato cheio para os transtornos alimentares, pois estamos sempre nos comparando, sempre insatisfeitos e sempre lutando pelo prato vazio. Pergunte-se quantas pessoas você conhece que não fazem restrições alimentares (eu conto nos dedos de uma mão). O comer transtornado tornou-se praticamente a norma e não sabemos o que fazer para amenizar essa angústia.


Não consigo resolver essa questão nesse curto artigo, mas posso sugerir algumas medidas para tentar ajudar ou para encaminhá-los para uma saída.


Primeiro e antes de mais nada: parem de comentar os corpos alheios! Há tantas maneiras de elogiar alguém, por que insistimos em elogiar a perda de peso? Quanto mais voltamos nossos olhares para outros corpos, mais nos frustramos com os nossos próprios. Além disso, quando elogiamos alguém que está magro ou comentamos que alguém engordou, não sabemos como aquela pessoa pode receber aquele comentário. Lembro sempre de uma frase que diz: seja gentil, pois todas as pessoas estão lutando uma batalha sobre a qual você não sabe nada.


Segundo, experimente parar de seguir as blogueiras fitness, as modelos, as musas do Instagram e passe a seguir pessoas normais, com corpos e curvas normais. Garanto que um tanto da insatisfação que sentem por não terem um corpo perfeito de Instagram, sumirá.


Por fim e o mais importante: procurem ajuda. Profissionais especializados em transtornos alimentares podem ajudar e muito na construção de uma imagem corporal mais gentil, em hábitos de comer saudáveis e na investigação e compreensão das dores que estão sendo “descontadas” no corpo. Sugiro começar por um psicanalista (preciso puxar a sardinha para o meu lado), mas recomendo também nutricionistas comportamentais e psiquiatras especializados em transtornos alimentares. Essa equipe, em conjunto, consegue operar grandes e positivas mudanças na vida de pessoas com transtornos alimentares.


Ter consciência de que as falas acima demonstram angustias e sofrimento, pode te ajudar a responder de forma a acolher a pessoa que normalizou o comer transtornado e, quem sabe, ajuda-la a repensar algumas escolhas e buscar ajuda. O caminho da melhora nos transtornos alimentares é longo, mas possível; que possamos ser agentes da melhora e não cúmplices dos transtornos.


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