• Paula Vaz

Liberdade de ser quem eu quiser

Atualizado: Abr 1


"Você é muito brava" "Louca!" "Fala mais baixo!" "Você deveria rever a forma como fala"

Me fizeram acreditar que algumas características minhas eram muito brutas e incompatíveis com uma moça “bela, recatada e do lar”. Características essas que nunca foram questionadas e sempre vestiram muito bem meninos e homens a minha volta.

“Você é muito sensível” “Você reclama demais” “Tá de TPM?”

Me fizeram acreditar que demonstrar sentimento e me expressar era inferior. Proibido. Mimimi. Chata.

"Futebol é coisa de menino" "As mulher que lavam a louça" "Fecha as pernas"

Me fizeram acreditar que alguns lugares e comportamentos não eram pra mim. Assim como outros eram obrigatórios.

"Essa roupa é muito curta" "Se você se vestir assim, o que vão pensar?" "Você deveria usar mais seus atributos físicos no trabalho"

Me fizeram acreditar que minha aparência era o que tinha de mais importante na vida, e que através dela conseguiria (ou não) o que quisesse. Algumas dessas frases (e olhares) me construíam, desde muito cedo, a percepção de um corpo sexualizado e objetificado.

"Como conquistar a barriga e o bumbum dos sonhos" "Tá com muita espinha? Toma anticoncepcional que vai ajudar."

Me fizeram acreditar que um dos meus maiores objetivos de vida era me tornar bonita, e me manter bonita. Custasse o que custar. Minha saúde, meu tempo, dinheiro, dor, padrões irreais, procedimentos estéticos, desconexão com meu corpo, minha sanidade mental.

"Voce é a mais bonita" "Ela tem mais peito, é mais magra"

Me fizeram acreditar que eu estava sempre competindo com as meninas e mulheres em volta de mim. Que a todo momento estávamos sendo comparadas e batalhando por uma mesma vaga, num coração, cama ou trabalho. Éramos inimigas.

"Como deixar seu homem louco na cama" "Quando vc casar…" “Ah, homem é assim mesmo né?”

Me fizeram acreditar que nasci incompleta, insuficiente, vazia. Que meu objetivo de vida era buscar um homem pra me complementar e validar. E pra encontrar esse homem (e manter essa relação), me fizeram acreditar que deveria estar dentro desse padrão de beleza, comportamento e submissão.


Através de tudo isso, me fizeram acreditar que tudo bem, normal, alguém falar sobre meu corpo, comportamento, existência. E assim, comecei a falar também de outras mulheres.


Enfim, pauta batida. Ainda mais: em semana das mulheres e em tempos de mulheres despertas. Mas sentir, pensar, escrever e partilhar sobre como essa construção se deu no meu mundinho cor de rosa, é parte consciente do meu processo longo em torno do "desacreditar".



Minha mãe conta que uma vez me empetecou inteira pra uma festa de aniversário, do jeitinho que toda família esperava de uma mocinha "bela recatada e do lar" em formação. Quando chegou na piscina de bolinha, eu tava lá só de calcinha, bem feliz. A moça que cuidava do brinquedo falou:


- "Ela disse que a senhora deixou!”


Sabe? Eu quero ser cada vez mais essa Paulinha. E desejo pra vocês, irmãs, essa mesma liberdade: despreocupada, espontânea e "nua".

E tudo o mais que ousarem desejar.


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