• Paula Vaz

Imagine que você está num quarto escuro...

Atualizado: Abr 1

Você não sabe muito o que existe ali, mas se sente confortável, amparado por algumas almofadas e um cobertor bem quentinho.


Você não quer sair dali. Com os olhos a maior parte do tempo fechados, você sente que nem precisa sair dali.


Mas de repente uma luz entra pela fresta de uma janela no canto do quarto, e os olhos automaticamente se abrem, tímidos.


Pelo pouco que você consegue enxergar, a bagunça é grande.


A vontade imediata é de fechar os olhos novamente, a claridade é tão incômoda quanto toda desordem que antes não podia ser vista.


Você tenta. Espreme os olhos, mas uma força involuntária insiste em abri-los.


Então você não tem dúvida. Apesar da moleza no corpo, se levanta e caminha em direção à janela que nem sabia que existia para fechá-la. Pelo caminho tropeça em alguns objetos e pisa em algo bem duro que quase perfura o seu pé:


-Droga! Eu sabia que não devia ter levantado.


Mancando, chega a janela decidido a fechar.


Se surpreende com uma vista bonita, árvores, céu azul e o cantar dos pássaros. Fica em dúvida sobre fechar, e com um dos olhos grudado no pequeno vão, observa por algum tempo a paisagem.


Desvia o olhar para o lado, e encontra na parede uma pintura curiosa, com algum valor afetivo que não consegue resgatar na memória o porquê, mas sente um calor bom no centro do peito.


Resolve então manter aquela frestinha aberta e explorar mais um tanto, inconscientemente empolgado com o que tem por vir. Caminhar pelo quarto é ao mesmo tempo que assustador, emocionante. Há tanto por descobrir, desbravar…


Decide por começar a tirar os objetos que estão jogados pelo chão, alguns julga ter utilidade, mas a maior parte vai juntando num cantinho pra se livrar e abrir espaço. No caminho encontra um tapete cheio de sujeira escondida debaixo… e o desespero é tamanho que considera fechar logo aquela janela e voltar pra cama, já que quase mais nada o impede de andar.


Mas já não dá mais pra desver o que foi visto. Num salto de coragem, respira fundo, retorna à janela e decide abri-la mais um pouco.


Descobre que aquele quarto aparentemente confortável no escuro, é na verdade repugnante à meia luz.


-Socorro! Como chegou nesse ponto? Não sei nem por onde começar.


Num misto de preguiça, medo e curiosidade, arregaça as mangas e vai jogando um monte de coisas fora, algumas com tranquilidade, outras com dor. Em uma caixinha charmosa guarda alguns objetos que apesar de já não terem mais serventia, fazem seu coração bater mais forte e até apertado. Apenas aceita, não se sente preparado para se desfazer.


Horas, dias, meses passam, e a medida que vai se sentindo mais confortável dentro do seu novo ambiente, vai se permitindo abrir um pouco mais a janela…


A sensação é de que a faxina nunca acaba. Organiza um armário, e quando volta pra ele alguns dias depois, tudo já está fora do lugar. Vez ou outra até encontra novas gavetas, e sente aquele desespero do primeiro dia de luz novamente. Mas dura pouco, por já ter desenvolvido seu próprio processo de organização, sem muito esforço bota tudo de novo e de novo no lugar.


Pensa bem, e até começa a achar interessante esse negócio de sempre ter algo pra limpar, organizar e descobrir dentro de um ambiente já tão conhecido e explorado. E já mais confortável, satisfeito com seu novo-velho lar… senta, relaxa e num suspiro decide:


-Acho que estou pronto pra abrir essa porta e descobrir onde ela vai dar!


“Se procurar por conforto, nunca encontrará a verdade. Se procurar a verdade, talvez encontre conforto.” (C. S. Lewis)

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