• Paloma Muniz

O indígena como receptáculo da sombra europeia

Atualizado: há 4 dias




O processo de invasão, destruição e colonização do Brasil será marcado pelo choque violento entre duas cosmovisões. A nativa, identificada com a experiência do princípio feminino, e a europeia, cuja consciência coletiva estava identificada de forma unilateral e defensiva com o princípio masculino – que, distanciado do feminino por repressão, constituiu uma masculinidade deformada e descontrolada. O resultado da aproximação entre o portador do feminino e o portador da facilidade destrutiva foi o holocausto indígena.


A formação da alma brasileira surge do trauma violento da colonização e da completa negação da ancestralidade. Como um bebê empelicado pelo saco gestacional, a América nasce sob um véu de sombra que clama em ser rompido para que a vida cresça. Mesmo após mais de quinhentos anos, o que se observa é que essa sombra ainda permanece cristalizada na psique coletiva brasileira e que conforme Boechat (2014), reflete um povo ainda em busca de identidade e em processo dinâmico de formação.


De acordo com Von Franz (1985) todas as civilizações, em especial a cristã, possuem sua própria e antagônica sombra e, para tornar-se consciente dela, se faz necessário um espectador, pois se vivêssemos sozinhos, não haveria ninguém para nos revelar qual seria sua imagem. Nesse sentido, a sombra do homem europeu desembarca juntamente com seu ego renascentista, inflacionado pela superioridade fálica do detentor da ciência, tecnologia e pensamento racional, interiorizado na imagem do salvador branco que não cultua sua origem ancestral e sim, busca de todo modo o triunfo sobre a inconsciência do homem primitivo.


A anima fica no cais, na poesia de Camões e nas pinturas renascentistas, deixando o homem europeu à deriva de suas próprias emoções, ou seja, inconsciente do seu feminino. Assim, ele chega na América autorizado pelo Papa Alexandre VI a pecar, e exercer toda a força do ego cristão, afinal, na Europa não é autorizado ao homem vivenciar sua sombra, existe a inquisição, a lei e Lutero, os delatores, portanto, na Europa é preciso se comportar.


Os indígenas, representam toda a inconsciência que o europeu tem de si, pois este está mergulhado nas suas próprias aspirações de grandeza imaculadas pela doutrina cristã, que nega o que é diferente e busca o reflexo de si mesmo, assim como Narciso. Nessa rota há um encontro entre anima e animus que conforme Jung (1993) é sempre animosa, ou seja, emocional e por isso coletiva, porém, no século XVI, a consciência coletiva estava preocupada em expandir seu controle material do mundo e a imagem do homem ameríndio era vista como uma figura opositora e inferior, pois o contraste assegurava ao civilizador a confirmação de sua duvidosa superioridade (GAMBINI, 1988). A projeção do colonizador para o colonizado surge como modo de expressão inconsciente no confronto ao desconhecido, ou seja, nos indígenas, na sua cultura e em todo o mistério enigmático que as novas terras convidavam a desvelar. Portanto, o desconhecido atua como estimulante da projeção.


A imagem do homem vestido sobre a sua nudez era vista como uma ‘coisa’ desprovida de alma, vazia, mais próximos dos animais do que dos seres humanos e assim começa uma degradação do outro, pois ele é diferente e o que não é imagem e semelhança é inferior. Diante disso, os jesuítas tinham a missão de sublimar esse povo sub-humano, pagão, desprovido de alma a condição de humanidade. Os jesuítas, vestidos de uma persona rígida, fixada na fraternidade, bondade, pureza, onde não era permitido reações pessoais, vontade própria, desejo, prazer, encontraram nos indígenas a sua sombra personificada e tudo que lhe eras negado a vivenciar devido a castração espiritual tal qual eram designados a viver. A sensualidade, sexualidade, nudez, liberdade não lhes eram permitidos e por isso, tudo que era associado a este comportamento seria demonizado e desprovido de salvação, ou seja, se os indígenas não conheciam o Deus cristão, a conclusão óbvia era de que eram o mal encarnado.


Tendo excluídos esses aspectos da sua personalidade por meio da repressão, os jesuítas passam a ver no outro o reflexo da sua própria sombra e assustados com o reflexo de sua obscuridade, sua psique consistirá em destruir nos indígenas tudo aquilo que destruiu em si mesmo, pois está aprisionado na rigidez do seu comportamento.


Quando os animais (instintos) são negados em si mesmos pelos jesuítas, eles podem tornar-se agressivos e ameaçadores, o que é revelado na incapacidade de compreender e apreciar a alegria de viver dos índios como o brincar, dançar, beber e cantar - e quem não consegue mais brincar torna-se intolerante a qualquer brincadeira, (GAMBINI, 1988). Consequentemente, em decorrência da catequese, os indígenas se afastam do aspecto dionisíaco da psique e passam a cultuar menos os seus Deuses, abandonando o gozo pela vida e seus rituais. E essa projeção letal do cristianismo nos ancestrais, provocou a morte dos ritos, mitos e do símbolo, sobretudo o genocídio de corpos indígenas, reduzindo cerca de 80 milhões para 20 milhões. O pajé, símbolo vivo da espiritualidade indígena foi um dos principais alvos dos jesuítas na tentativa de eliminar qualquer símbolo contrário a doutrina cristã. O esvaziamento de sentido da imagem do pajé, viria como uma estratégia de dominação e sua sobrevivência só seria possível através da resistência.


Gambini (1988), considera que na figura dos pajés estaria corporificada a projeção específica da sombra dos jesuítas, que neles viam estampado tudo aquilo que não conseguiam ver em si mesmos. A luta pela eliminação dos pajés era uma manobra tática que correspondia, no plano interior, ao fato psicológico de que os missionários pretendiam suprimir sua dimensão inconsciente sombria. Considerados pelos jesuítas como mentirosos e enganadores, tendo-lhes sido recusada a admissão de sua integridade ou o reconhecimento de que cumprissem uma função social específica (a de responsáveis pela mediação entre o mundo material e o espiritual), os pajés foram os porta-vozes da resistência desde os primórdios da colonização, opondo-se à catequese e advertindo que a água batismal causava doenças e que a doutrina dos padres matava. A alegação dos pajés foi confirmada pela História.


Após dez anos de conversão, em 1560, a guerra estava ganha. Gambini (1988, p. 171-172) apresenta uma pintura proveniente de uma igreja jesuíta em Dillingen, na Bavária, que mostra José de Anchieta pregando em frente à igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia. Ao fundo, vê-se a nau dos conquistadores. Os índios e as feras, apaziguados, e uma serpente que poderia representar os pajés despotencializados. Do ponto de vista da Companhia de Jesus, a vitória é sobre o mal; do prisma do autor, essa pintura ilustra o grave fato de que o conato não-racional com o inconsciente foi substituído por uma doutrina que, incapaz de deitar raízes na psique indígena, acabou exterminando a alma que pretendia salvar.



Este processo também está representado num esboço pós-renascentista para a ornamentação de uma villa de Verona. À direita, aparece um braço humano sendo assado num espeto e uma nau representando a conquista e a chegada da consciência cristã. Um índio evangelizado desvia o olhar do canibalismo e fixa-o numa cruz instável que perfura o casco de uma tartaruga. Este animal, antigo símbolo do substrato que suporta a consciência, representa aqui o inconsciente coletivo indígena. Ao perfurar o casco, a cruz mata a tartaruga. Nessa perspectiva, a cruz representa toda a rigidez do excesso de logos do homem europeu que se recusa a se relacionar com a consciência mágica indígena protegida pelo casco de sua cultura e ancestralidade. Para que eles recebam a redenção divina é necessário que haja uma ruptura de suas crenças e valores culturais, para que a doutrina penetre e roube a sua verdadeira alma. Assim, ao invés de buscar a integração desses aspectos opostos, o homem europeu mata o símbolo vivo e anímico, construindo um muro psíquico que impede que a relação aconteça entre colonizador e colonizado, masculino e feminino, entre Eros e Logos e com isso barram a possibilidade dos polos se relacionarem optando pela destruição do polo oposto.



BOECHAT, Walter. A alma Brasileira: Luzes e Sombra. Petrópolis: Vozes, 2014.


DIAS, Lucy; GAMBINI, Roberto. Outros 500: uma conversa sobre a alma brasileira. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1999.


GAMBINI, Roberto. Espelho Índio: a formação da alma brasileira. São Paulo: Editora espaço tempo. 1988.


JUNG, Carl Gustav. Obras completas. Vol. 10/3. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 1993.


VON FRANZ, Marie Louise. A sombra e o mal nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 1985.


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