• Paloma Muniz

O Tsunami e o espírito das profundezas - uma análise simbólica da pandemia COVID-19



Em 1912 Jung tinha por cerca de 40 anos. Nessa altura da vida ele havia adquirido bens materiais, viajado o mundo, constituído família e consolidado uma carreira profissional respeitada. No entanto, havia dentro dele uma insatisfação, talvez uma necessidade profunda de dar um sentido maior à vida, o que o levou a dedicar-se a confrontar o próprio inconsciente. Nesse período Jung havia rompido com Freud, um marco importante na sua vida que o levou a um processo de introspecção.


A partir da sua autoanálise ele escreve O Livro Vermelho, que traz na sua interlocução a gênese dos seus fundamentos; um registro de suas experiências em que ele retrata algumas imagens que emergiram do seu inconsciente por intermédio de sonhos, imaginação e visões. É um livro que revela quem foi o homem Jung por trás da sua teoria.


Na tentativa de compreender as imagens que o visitavam, Jung começa a aplicar a técnica de imaginação ativa consigo mesmo. Por meio de brincadeiras, construindo cidades de pedrinhas, emergiram sentimentos e emoções, e assim foi-se movendo profundamente no mundo interno, dando a examiná-lo e disposto a compreendê-lo através da sua consciência. Esse diálogo entre mundo interno e externo, é denominado por ele como espírito das profundezas e espírito da época, que é a consciência coletiva do presente.


Quando falo em espírito dessa época, preciso dizer: ninguém foi e nada pode justificar o que vos devo anunciar. Justificação para mim é algo supérfluo, pois não tenho escolha, mas eu devo. Eu aprendi que, além do espírito dessa época, ainda está em ação outro espírito, isto é, aquele que governa a profundeza de todo o presente. O espírito dessa época gostaria de ouvir sobre lucros e valor. Também eu pensava assim e meu humano ainda pensa assim. Mas aquele outro espírito me força a falar apesar disso para além da justificação, de lucros e de sentido. Cheio de vaidade humana e cego pelo ousado espírito dessa época, procurei por muito tempo manter afastado de mim aquele outro espírito. Mas não me dei conta de que o espírito da profundeza possui, desde sempre e pelo futuro afora, maior poder do que o espírito dessa época que muda com as gerações. O espírito da profundeza submeteu toda vaidade e todo orgulho à força do juízo. Ele tirou de mim a fé na ciência, ele me roubou a alegria da explicação e do ordenamento, e fez com que se extinguisse em mim a dedicação aos ideais dessa época. Forçou-me a descer às coisas mais simples e que estão em último lugar (Jung, 2019, p. 109).

No espírito da época, tal qual Jung escreve no O Livro Vermelho, o inconsciente era apenas uma hipótese na ciência embora Freud já o postulava. Talvez por isso existisse uma preocupação de Jung em postergar a publicação para cinquenta anos após sua morte. Hoje, especialmente na psicologia junguiana, o inconsciente é visto como a base sobre a qual a consciência existe, como uma ilha em um oceano inconsciente e que, por intermédio dos estudos da neurociência, sabe-se que também faz parte dos processos mentais (Roesler, 2019).


Essa dialética entre espírito da época e espírito das profundezas, brilhantemente antevista por Jung, mostra-se como uma representação simbólica que dialoga com o momento pandêmico ao qual a humanidade está posta na contemporaneidade – mais de noventa anos depois, O Livro Vermelho nunca foi tão atual. Com o surgimento do COVID-19 e a possibilidade de morte iminente, no espírito de uma época que vive com pressa, a serviço do ego, das conquistas, do progresso, trabalho etc., vislumbra-se um novo paradigma, construído a partir de um novo olhar , mais profundo, como uma convocação do espírito das profundezas para um processo necessário e urgente de individuação.


Embora a individuação contemple temas e experiências singulares, na qual cada um de nós moldamos uma história única, existem também padrões gerais que são os temas e processos arquetípicos que se apresentam com características semelhantes em todo processo de individuação (Stein, 2020). E assim como Jung foi atravessado por imagens catastróficas de um dilúvio em 1913 na Europa, que posteriormente relacionou a primeira guerra mundial, (Jung, 2014), me vi em 2020 no início da pandemia, perturbada por sonhos constantes com um mesmo símbolo: o tsunami.


Para Jung (2016) o símbolo nasce de estruturas arquetípicas que são moldes representativos de temas típicos da existência humana. É uma chave de transformação da libido, a partir de um estado instintivo buscando uma finalidade, ou seja, um desenvolvimento psíquico pelos caminhos apontados por ele.


O tsunami nos meus sonhos e de meus pacientes sobrevinha conforme a pandemia foi tomando proporções mundiais, emergindo como um símbolo perturbador, sinalizando um mau presságio e uma angústia diante de um fenômeno natural, grandioso e catastrófico. Diante dessa imagem os relatos eram de: sensação de inferioridade, sufocamento, incapacidade, medo, pavor e perplexidade. Pela primeira vez uma catástrofe me atravessava ao mesmo tempo que meus pacientes. Eu, lançando meu olhar diante desse cenário, também me vi tomada por sentimentos e emoções intensas de medo e angústia. Logo, me tornei uma ouvinte da dor que também me pertencia, pois, assim como meus pacientes, eu, enquanto pessoa, estava sendo convocada a vivenciar essa mesma experiência e todas as transformações, perdas e lutos tal qual a pandemia ocasionava.


Como consequência, a sincronicidade entre as imagens dos meus sonhos com a de meus pacientes me trouxe a convicção de que algo do inconsciente coletivo repercutia em busca de uma maior elaboração. Para Whitmont (1990), as imagens arquetípicas podem surgir espontaneamente no sonho, quando acontecimentos interiores ou exteriores, violentos, ameaçadores ou poderosos, devem ser confrontados quando existe um estado de emergência psíquica ou física, e, nesses casos, o núcleo arquetípico em estado bruto apresenta-se de forma repentina. Desta forma, o tsunami revela - enquanto símbolo e de forma espontânea - uma imagem violenta, ameaçadora e factual da pandemia mundial de COVID-19. Assim como Jung analisava as próprias imagens dos seus sonhos no’O Livro Vermelho, buscando algum significado simbólico, eu tentava compreender o que o espírito das profundezas me comunicava.

Tanto a pandemia de COVID-19 como um Tsunami, ambos são fenômenos catastróficos da natureza que transcendem a nossa capacidade de controle e domínio. Podemos avistar ao longe sua chegada, mas nada podemos fazer para evitá-la.


Um tsunami é um trem de ondas, ou uma série de ondas, geradas numa massa de água por uma perturbação que desloca verticalmente a coluna de água. Os tsunamis podem ser gerados por sismos em regiões costeiras e oceânicas, deslizamentos de taludes submersos, erupções vulcânicas, explosões ou ainda por impactos de corpos cósmicos, como meteoritos. Os tsunamis atingem períodos típicos da ordem de uma hora e comprimentos de onda superiores a 200 km. Em consequência do seu grande comprimento de onda, um tsunami comporta-se como uma onda que se propaga em condições de água pouco profunda. Ondas com estas características propagam-se com celeridade proporcional à raiz quadrada do produto da gravidade pela profundidade. Por outro lado, a "perda de energia" destas ondas é inversamente proporcional ao seu comprimento de onda; por conseguinte, os tsunamis não só se propagam a grande velocidade, como podem percorrer distâncias transoceânicas com uma limitada "perda de energia" (CARMO, p.1, 2000).

Os tsunamis, conforme aponta Carmo, são fenômenos catastróficos gerados por algum movimento sísmico, vulcânico ou pelo impacto de um corpo cósmico. Antes da formação de um tsunami acontece um movimento de recuo do mar, que revela parte do leito da costa marítima e, simbolicamente, podemos associar com a regressão da libido diante de uma fixação do complexo. Metaforicamente, o tsunami atua de forma semelhante aos complexos, pois eles consomem energia, têm vontade própria e são mais fortes do que a capacidade de resistência do ego, ou seja, são inevitáveis (Stein, 2019). Nessa perspectiva, a imagem do tsunami representa a força de um complexo constelado, com alta capacidade de destruição, atuando de forma violenta e carregado de energia.


No primeiro sonho que tive com essa imagem, a pandemia ainda não havia se alastrado no Brasil, foi no início do carnaval de 2020. Lembro-me que fiquei semanas pensando na imagem, tentando entender o que o meu inconsciente estava tentando me apresentar.


“Eu estava caminhando na praia com a minha família, era um dia lindo e o céu estava perfeitamente azul, sem nenhuma nuvem. Meus filhos estavam brincando na beira do mar enquanto eu os observava à certa distância, quando de repente o céu fica escuro e sou tomada por um medo que congela meu corpo. Tento gritar e não consigo. Vejo o mar se recolher quilômetros ao longe. Só depois de um tempo compreendo que é um Tsunami. Grito por meu pai e tento ajudá-lo a sair da areia, mas ele me ignora. Pego meus filhos pelo braço e corro para um banco alto de areia. Em seguida percebo que é tarde demais e não dá para fugir. Vejo a onda gigante se aproximando e penso ‘Vamos morrer!’. Acordo com o coração muito acelerado e uma sensação muito forte de medo.”


Assim como a pandemia de COVID-19, o Tsunami não avisa quando vai chegar, apenas podemos observá-lo e pensar como fugir dele ou se proteger. Ambos são forças da natureza, onde a única certeza que se tem, diante de algo tão grandioso, é que haverá perdas independente da escolha a ser tomada.


Após um ano e meio do início da pandemia já reconhecemos as perdas, os lutos, os adoecimentos e a destruição que essa catástrofe causou. Muitos perderam amigos, família, a rotina, a liberdade, muitos tiveram que se adaptar à solidão, à recuperação pós-covid, ao distanciamento e muitos se viram diante do medo da morte. Boechat (2020), faz uma crítica ao homem moderno. Para ele, o problema das relações abusivas do homem com a natureza reflete na pandemia, pois a humanidade não conseguiu sair das polaridades como mente-corpo, consciente-inconsciente, homem-mulher, homem-natureza, permanecendo em uma espécie de polaridade perversa.


Evidentemente essa polaridade está inclinada ao aspecto racional da psique humana, que reflete no espírito da nossa época na busca incessante pelo progresso em detrimento da destruição da natureza. O que se percebe é que a natureza pode ser tão violenta e devastadora quanto o homem.


O tsunami inunda toda a vida, como um mar de emoções em que todos nós estamos vivendo. Alguns tentando sobreviver, outros se afogando, alguns mortos e muitos feridos. Tratando-se de Brasil, o Tsunami ainda ameaça com novas ondas e sem nos ofertar nenhum porto seguro, o que nos faz permanecer à deriva, tentando se agarrar aos destroços para sobreviver. A imagem simbólica do tsunami emerge como uma tentativa do espírito das profundezas de nos conduzir em busca de um sentido conduzido por uma imersão profunda em nós mesmos, regando os espaços vazios em tempos de vidas secas sob uma terra árida. O desafio é superar essa polaridade perversa imersa em um mar de Logos através da relação com o Eros da psique humana. Para Jung (vol. 10/3, § 255), Eros e Logos são dois princípios arquetípicos. Eros seria uma imagem para o que compreendemos como “relacionamento psíquico” ou “ligação”, ao passo que Logos simboliza o “interesse objetivo”.


Como símbolo, observa-se que o tsunami é reconhecido por uma inundação, caracterizando a fase alquímica da solutio que, segundo Edinger (1990), significa o retorno da matéria ao seu estado original, como uma regressão ao útero para fins de renascimento. A introspecção, o recolhimento, por vezes aliados à solidão, têm sido temas muito recorrentes na clínica, sobretudo referente às transformações internas e externas. Observar-se uma imersão no mar de emoções profundas, como um convite para uma conexão maior com sentimentos ocultos. Os sonhos com a imagem de tsunamis nos aproximam do aspecto numinoso da psique, gerador de transformação, onde, através dessa experiência, é possível criar transformação psicológica, pois oferece os ingredientes essenciais para o processo de individuação (Stein, 2020). Para Edinger (1990), a solutio pertence a água, transforma sólido em líquido e, para que um corpo sofra transformação, é necessário que volte a seu estado original, para depois coagular em uma nova forma. “O banho, o aguaceiro, o chuvisco, a natação a imersão na água e etc. são equivalentes da solutio que costumam aparecer nos sonhos”. Quando o tsunami se propaga, a imagem que fica é a de uma terra arrasada. Para Byignton, (2019) o principal problema da atualidade é a alienação ética e existencial, que impede o indivíduo de reconhecer os valores que realmente são importantes na vida individual e coletiva e que ficam ocultos na sombra coletiva moderna, como o egoísmo, as dependências, a violência e a corrupção. O tsunami, portanto, nos convida a um recomeço, uma mudança, mesmo que para isso seja necessária uma enorme destruição para que o novo aconteça.

Referências:

ANTUNES DO CARMO, José S.Tsunamis: Geração e riscos. Territorium: Revista Internacional de Riscos, v. 7, 15 setembro 2000.

BOECHAT, Walter. A Covid -19 e seu significado para humanidade atual: uma reflexão. Instituto Junguiano do Rio de Janeiro. 2020. Disponível em: http://institutojunguianorj.org.br/a-covid-19-e-seu-significado-uma-reflexao/. Acesso em: 19 de junho de 2021.

BYINGTON, C. Diálogos com o Prof. Dr. Carlos Amadeus Botelho Byington. Disponível em: https://www5.pucsp.br/jung/. Acesso em: 19 de junho de 2021.

EDINGER, Edward F. Anatomia Da Psique. Editora Cultrix, v. 1, f. 137, 2005. 274 p.

JUNG, C. G. Símbolos da transformação. In: Obras Completas de C. G. Jung, vol. V. Petrópolis: Vozes, 2011. (Trabalho original publicado em 1952).

JUNG, Carl Gustav. O livro vermelho: Liber novus, f. 186. 2009. 371 p.

JUNG, Carl Gustav. Obras completas. Vol. 10/3. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 1993.

JUNG, C.G. Seminários sobre análise de sonhos: notas do seminário dado em 1928- 1930 por C. G. Jung. Org. William McGuire. Trad. Caio Liudvik.Petrópolis: Vozes, 2014.

ROESLER, C. (2019) Fundamentos teóricos da psicologia analítica: desenvolvimentos recentes e controvérsias. J Anal Psychol , 64 : 658 - 681 . https://doi.org/10.1111/1468-5922.12540 .

STEIN, Murray. Jung e o Caminho da Individuação: Uma Introdução Concisa. Editora Cultrix, v. 2, f. 108, 2020. 216 p.

WHITMONT, Edward C. Busca Do Símbolo, a. Editora Cultrix, v. 1, f. 152. 304 p.

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