• Paula Vaz

Saindo da caverna


Dia desses um amigo lamentou que andava se sentindo pouco motivado no trabalho, imediatamente após receber uma promoção e passando a assumir um cargo de liderança. Complementou dizendo que andava fazendo reuniões com seu time de câmera fechada e que sentia falta da interação do escritório.


Lembrei da primeira vez que os comércios voltaram a abrir e fui desafiada a retornar ao presencial, rever clientes, alunos, amigos. Eu, que me julgo bastante extrovertida e sociável, senti bastante preguiça, confesso. Preguiça, misturada com medo, incômodo, resistência. Pouco antes desse retorno pensei estar com depressão, tamanha minha falta de vontade em levantar da cama, todos os dias.


Muito se fala do estresse enquanto algo negativo, pouco se fala do estresse "do bem". Existem inclusive termos usados na psicologia e psiquiatria para diferenciá-los:

"O eustresse e distresse causam reações fisiológicas similares. A grande diferença é emocional. O eustresse faz a pessoa se sentir motivada e satisfeita. Enquanto o distresse faz com que ela se sinta ameaçada, intimidada" - Ana Maria Rossi

A pandemia nos trouxe esse aparente "conforto", penso. Ficar em casa, passar o dia de pijama, não se arrumar, pegar trânsito, transporte lotado. Não ver, ser visto, interagir, conviver, trocar, socializar. Por fora gritamos nossa insatisfação com o isolamento, mas no fundo - será que não estamos de alguma forma muito bem acomodados dentro das nossas cavernas? Protegidos por trás do discurso do medo e respeito?


"Aquele que é incapaz de viver em sociedade, ou que não sente essa necessidade porque é [auto]suficiente, deve ser ou uma fera ou um deus." - Aristóteles

Aristóteles entendia que se vivemos em sociedade é porque isso não só é uma tendência, mas a finalidade do ser humano. Nesse longo período de isolamento, como um dos resultados da privação social, temos sofrido de falta de eustresse (estresse+) - aquele que nos faz acordar pela manhã, nos motiva. E na ausência de eustresse, conexão, desafios, novidade, afeto, podemos experienciar sensação de tédio, cansaço, depressão, morte, letargia.

"Letargia: estado de profunda e prolongada inconsciência, semelhante ao sono profundo, do qual a pessoa pode ser despertada, mas ao qual retorna logo a seguir. Incapacidade de reagir e de expressar emoções; apatia, inércia e/ou desinteresse." - Dicionário Houaiss

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Sem diminuir a importância e urgência do isolamento, mas adaptando essa consciência à realidade: tomar um banho pela manhã, vestir uma roupa "de sair", ligar a câmera, interagir, movimentar o corpo, conectar… talvez sejam formas de se sentir mais vivo.


Além do estresse negativo, que esse período tem nos oferecido de sobra… você sente que tem acumulado também estresse positivo? O que tem te motivado? O que você pode inserir, mudar na sua rotina, em segurança (individual e coletiva) pra se sentir mais vivo(a)?


Voltei a dar aulas presenciais, e gradualmente tenho visto velhos e novos rostos. Antes de iniciar é sempre um misto de sentimentos, mas durante e depois - me sinto a cada aula mais professora, mais inteira, mais eu.





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