• Rodrigo Falcão

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Atualizado: Abr 1


No aforismo “A grande saúde” de A Gaia Ciência, Nietzsche compara os “homens nascidos cedo, de um futuro ainda indemonstrado”, a "argonautas do ideal", lançados ao mar como náufragos danificados, mas que sempre retornam “perigosamente sadios”. A grande saúde que ele prega, embora possa ter algo de saúde física, está mais associada à saúde do espírito. Essa saúde não somente se tem, mas se conquista, assim como faziam os marinheiros que bravamente encaminhavam-se rumo ao desconhecido, em busca de novos mundos. Estes “argonautas do ideal” têm a consciência de que são senhores de sua embarcação, e têm coragem de se aventurar em mares nunca antes navegados, conquistando, diariamente sua grande saúde.


Quando busquei a Filosofia como caminho de autoconhecimento, ainda não tinha ideia de onde poderia chegar. Na minha trajetória encontrei quem torcesse o nariz para qualquer tentativa de tornar a Filosofia mais acessível e aplicável ao dia-a-dia, como fosse esse, um conhecimento reservado apenas aos sábios mestres e seus dedicados alunos, os quais, muitas vezes, estudam muito e pensam pouco. E quanto mais entrava em contato com tanta formalidade, mais tinha vontade de debater assuntos filosóficos com menos afetação e mais pensamento crítico, utilizando a Filosofia como ferramenta para destrinchar e aprofundar o conhecimento de si e do mundo. Isso é possível, mas, para tanto, é necessário que se tire a Filosofia do pedestal, e a coloque em intersecção com outras áreas de conhecimento. Por isso, vem em ótima hora esse convite (feito pela minha querida irmã Paula) para participar deste grupo interdisciplinar de estudantes e entusiastas do que Nietzsche chamava de “grande saúde”.


Como a ideia é a de que esse meu espaço seja preenchido quinzenalmente, nos próximos artigos tentarei emaranhar a Filosofia a outros assuntos, sobre os quais escrevem os outros "argonautas do ideal" que fazem parte deste blog. E para este primeiro artigo, proponho um olhar para a nutrição, a partir de alguns escritos de Nietzsche.


“A carne demasiadamente cozida; os legumes refervidos com muita gordura e farinha; os doces, duros como ladrilhos! – Se a isso tudo se acrescentasse a necessidade verdadeiramente bestial dos velhos alemães, e não dos velhos somente, de beber depois de jantar, compreender-se-ia também donde provém o espírito alemão: dos intestinos empanturrados... (...) É mais fácil digerir uma ceia abundante do que uma bem minguada. Condição primacial para uma boa digestão é que o estômago aja plenamente. É preciso conhecer a grandeza do nosso estômago. Pelo mesmo motivo não são de aconselhar-se aquelas intermináveis ceias que eu denomino sacrifícios interrompidos: As ceias em table d’hôte. Não se come entre uma refeição e outra, nem se toma café: o café esfria as ideias. O chá apenas faz bem pela manhã; pouco, porém forte, faz muito mal e pode inutilizar um dia todos e for só um pouquinho mais fraco. Nisso cada um tem sua medida, que se situa quase sempre entre os limites mais restritos e limitados.”[1]


O relato, aparentemente despretensioso, de quem confidencia suas preferências alimentares, pode parecer saído de alguma crônica, ou - não fosse a linguagem rebuscada - de algum blog de crítica culinária.


O texto, porém, está em um dos primeiros capítulos de Ecce Homo, último livro escrito por Nietzsche, antes de ser acometido por grave doença mental, que o levaria a uma permanente reclusão.


Na época, o livro que era uma espécie de autobiografia, não foi levado a sério, a começar pelos nomes dos capítulos (“Por que sou tão sábio”; “Porque escrevo bons livros”) e também por relatos pessoais que se afastavam do que se espera de um livro de Filosofia. Nele, Nietzsche narra de maneira pormenorizada os seus hábitos, a fim de ressaltar a importância do cuidado da fisiologia e pelo que chamava de “coisinhas” como nutrição, lugar, clima, devaneios e casuística total do egoísmo, como questões infinitamente mais importantes do que tudo aquilo que até então teria sido considerado como importante, notadamente a razão e os valores cristãos.


Ao colocar os cuidados com o corpo como essenciais para seu sucesso como pensador, o filósofo reafirma a sua crítica à metafísica que separa corpo e alma, ou corpo e mente. A alimentação, necessidade do mundo efetivo, é tão ou mais importante do que ler uma centena de livros.


E mais: Ao listar suas preferências, Nietzsche está incentivando seus leitores a se conhecerem: Cada corpo é um. Ele aprendeu a lidar de maneira empírica com os reflexos de cada tipo de alimento em seu corpo. Não há receita quando se trata de individualidade, tanto para alimentação, quanto para outros afetos com os quais nos deparamos no curso da existência. A metáfora da digestão também é utilizada por Nietzsche quando trata de ressentimento ou esquecimento:


“Esquecer não é uma simples vis inertiae [força inercial], como crêem os superficiais, mas uma força inibidora ativa, positiva no mais rigoroso sentido, graças à qual o que é por nós experimentado, vivenciado, em nós acolhido, não penetra mais em nossa consciência, no estado de digestão (ao qual podemos chamar ―assimilação psíquica), do que todo o multiforme processo da nossa nutrição corporal ou ―assimilação física.”[2]


Além disso, a partir da crítica à forma de os alemães se alimentarem, Nietzsche afirma-se como indivíduo singular, que se distancia de seus antepassados desde as necessidades mais básicas, até a sua constituição de sujeito: A maneira de comer diz tanto a respeito de um indivíduo, quanto qualquer outra maneira de expressão.


Um dos motivos pelo qual tenho em Nietzsche meu filosofo preferido, é o fato de ele ser um dos primeiros a romper com a tradição filosófica, tanto na forma como no conteúdo. Era próprio do autor escrever Filosofia como fosse poesia, como se fizesse música. Uma crítica que recebeu de seus colegas contemporâneos, era a de que ele não havia sido capaz de propor um sistema filosófico. Isso, talvez, porque ele não acreditava em sistemas, afirmava a vida por meio de sua singularidade.


A relação do homem com os alimentos, tão banalizada em tempos de fast food, jejuns intermitentes e vitaminas milagrosas, deve ser reavaliada. É a partir da alimentação que nos conectamos com o mundo exterior (desde o seio materno até a última refeição do condenado à morte). A partir dela somos lembrados da nossa limitada condição humana, que necessita da natureza para existir. Isso sem falar nos mais tradicionais rituais associados à partilha do alimento, que podem tornar o “sentar-se à mesa” algo tão sagrado quanto um rito religioso. A alimentação nos faz mais humanos e isso é uma delícia!


Um brinde à Nutrição e à Filosofia!


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[1] NIETZSCHE, Friedrich. Porque sou tão sagaz. Ecce Homo: como cheguei a ser quem sou. Tradução de Lourival de Queiroz Henkel – Edição especial. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. p. 44 [2] GM, II, § 1, p.47.

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 2001.


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