Sísifo e cotidiano

Atualizado: 13 de mai. de 2021

Todo dia ouço alguém reclamar sobre como a vida está chata na pandemia, porque todos os dias parecem iguais. Como se a doença e seus reflexos fossem a única força a nos manter rodando em círculos, dia após dia.
Essa condição de fazer as mesmas atividades diariamente, porém, é antiga: Há cerca de seis mil anos, o ser humano vem se submetendo a algum tipo de rotina, vivendo em sociedade e dividindo tarefas a fim de aumentar a produção para sustento da comunidade. Apesar de parecer muito tempo, é pouco, comparando com o que se acredita ser o aparecimento da nossa espécie no planeta: Cerca de 350 mil anos.
Desde o início, até o aparecimento das cidades, o homem vivia como caçador-coletor e tinha uma vivência nômade. Toda nossa constituição passou por esta forma de viver, motivo pelo qual nos sentimos tão estafados com a rotina. Não fomos feitos para fazer as mesmas coisas todos os dias. Nossa essência individualista e aventureira foi reprimida em função de um bem comum e do conforto de viver em comunidades, o que aceitamos pois parecia ser um bom negócio, mas nosso corpo nunca esteve preparado para isso, e por isso reclama.
A vida em família, outra construção relativamente recente na existência humana, parece funcionar melhor quando os membros se sujeitam a uma vida estável e previsível, porém, também pode ser cansativa, como acontece na história-desabafo cantada por Chico em “Cotidiano”, em que todos os dias sua companheira faz tudo sempre igual. Em um looping infinito, as estrofes se sobrepõem sem mudança de ritmo, em uma angústia crescente baseada na repetição sufocante. Quem está em quarentena fazendo home office com o companheiro sabe do que o Chico estava falando.
Em um tom mais contemplativo, Lulu e Nelson Mota escreveram “Como uma onda no mar”, em que a metáfora do ir e vir das ondas, remontam à vida repetitiva de quem foge e mente a si mesmo e acaba vendo a vida passando como ondas no mar. Nesta música, porém, já há uma luz no fim do túnel: Há muita vida “lá fora”, um lugar onde tudo muda o tempo todo.
Mas a melhor e mais nobre saída para a mais dura de todas as rotinas já conhecidas, pode ser encontrada no ensaio filosófico “O Mito de Sísifo” de Camus. Sísifo era o mais astuto dos mortais, o primeiro a dominar a escrita. Por ser muito inteligente, era capaz de driblar os desígnios dos deuses, e por isso conseguiu incomodar Zeus e Hades, deus da morte. Em vida, conseguiu escapar de ambos, mas após sua morte, foi sentenciado por eles a cumprir uma pena por toda a eternidade: Sísifo foi condenado a rolar uma rocha até o alto de uma montanha. e lá de cima, ela tornaria a cair por seu próprio peso. Então Sísifo deveria voltar e fazer todo o trabalho novamente. Pra sempre! Os deuses tinham a certeza de que não haveria castigo mais terrível que um trabalho eterno, inútil e sem esperança.
Sísifo, porém, transmutou seu terrível destino em algo esplêndido: Encontrou beleza em cada subida. Cada vez que atingia o topo, um sentimento de vitória. Fez da pedra, por si só, um mundo, um pedaço de natureza e sua casa. Passou a ouvir e se admirar com os sons da rocha com o solo e contemplar as cores que mudavam em cada trajeto, tornando cada momento único.
Para Camus, o “mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida. A clarividência que deveria ser o seu tormento consuma, ao mesmo tempo, sua vitória. Não há destino que não possa ser superado com o desprezo.”
Se pensarmos nossa existência com um olhar pessimista, podemos enxergar cada dia como um dia de trabalho de Sísifo: recorrente e sem fim, atrás de sustento, sem novidade, e que se repetirá no dia seguinte e assim sucessivamente até o dia que não tivermos mais forças para seguir.
Porém, se olharmos com o mesmo desprezo que Sísifo tinha pela morte e pelo destino que lhe fora imposto, perceberemos que somos deuses de nós mesmos. A experiência do caminho é só nossa. A beleza está em encontrar as minúcias e peculiaridades que fazem cada ciclo diário, um novo presente, um novo mundo de possibilidades.





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