• Rodrigo Falcão

O caminho do meio

“Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco”

- Epicuro


Parto hoje, do texto escrito pela Paula Vaz, que trata da dificuldade que temos em lidar com nossos mais diversos desejos materiais. Para tanto, busco respostas nos primeiros pensadores que abordaram o assunto: Os filósofos gregos da antiguidade.


Dois movimentos começaram quase ao mesmo tempo, por volta do século IV, Estoicismo e Epicurismo e ambos tinham como tema central a relação do homem com seus desejos materiais. Esses dois movimentos eram populares e era comum as pessoas da época se dividirem entre estoicos e epicuristas, de acordo com o que acreditavam ser a melhor maneira a se comportar em relação aos impulsos e prazeres.


Para Epicuro, “o início e a razão de todo prazer estão no estômago” e o prazer do espírito é a contemplação dos prazeres do corpo. Diferente dos hedonistas, porém, ele propunha um equilíbrio na satisfação dos prazeres, pois os exageros podem causar dor. Usando o exemplo da alimentação, seria desejável estar sempre em um estado de quem se alimenta moderadamente, não sentindo nem a dor da fome, nem a dor do excesso de comida. A mesma ideia serviria para outros prazeres, como o desejo de poder e o amor, pois aquele que conseguir encontrar o equilíbrio terá alguma autonomia sobre a dor, que deveria ser sempre evitada.


O estoicismo foi fundado por Zenão, mas teve outros filósofos importantes, como Sêneca e Epiteto. Acreditavam que não existia acaso, mas que tudo era guiado por leis naturais, sendo que a verdadeira virtude era estar de acordo com essas leis da natureza. A virtude, a qual era a única coisa que o homem poderia controlar, estaria acima da saúde, da felicidade ou das posses. Um homem poderia ser pobre, mas ainda virtuoso, poderia ser preso e condenado à morte, mas ter uma morte nobre, como Sócrates. Assim, cada um teria a liberdade para se ver livre dos desejos mundanos. Os estoicos acreditavam que o sofrimento não é um mal em si, pois é uma oportunidade de tornar-se mais virtuoso.


Enquanto os epicuristas procuravam se afastar do medo e da dor, os estoicos os aceitavam, pois viam ali uma oportunidade de serem mais virtuosos. Enquanto os epicuristas buscavam a felicidade por meio do prazer moderado, os estoicos consideravam sábio aquele que soubesse ser indiferente ao prazer.


Apesar das diferenças, as duas escolas tratavam de autocontrole, da capacidade de dizer não aos impulsos. E nisso podemos usar um pouco de cada uma dessas filosofias: Em vez de ficar entrando em programas milagrosos de emagrecimento, comprando remédio pra parar de fumar e livros de auto-ajuda pra parar de se permitir ser mal tratado em relacionamentos amorosos, bastaria um pouco de Sêneca e de Epicuro.


Claro que os tempos são outros e ninguém precisa viver de pão e água e dormir no colchão duro, como pregavam alguns estóicos, e nem buscar esse equilíbrio insosso dos epicuristas. Porém, vivemos em uma crise coletiva de ansiedade e falta de controle. Não cabemos dentro de nós mesmos e, impulsionados pelo consumismo, sempre buscamos algo a mais fora de nós. É nesse ponto que podemos recorrer a essa turma da antiguidade. Algumas frases para pensar:


“É estupidez pedir aos deuses aquilo que se pode conseguir sozinho.” “Mais vale dormir tranquilo sobre um berço de palha do que ficar insone e atormentado sobre um trono de ouro.” -Epicuro

“As dificuldades fortalecem a mente, como o trabalho faz com o corpo”. “O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário.” - Sêneca

Em tempo: Se eu vivesse naquela época, seria do time dos Epicuristas. Mesmo essa história de comedimento parecendo meio chata, os Epicuristas valorizavam o prazer e acreditavam que a felicidade estava nestes pequenos momentos do dia-a-dia, com o que eu concordo. Além disso, diz a história que Epicuro lecionava em um florido jardim no quintal de sua própria casa onde todos eram bem-vindos, mulheres, escravos e prostitutas, o que na época era algo impensável. (Pena que em vez de servir um vinhozinho, os convidados eram recebidos com água e pão somente.)




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