• Giuliana Galdino

Emagrecer ou Pertencer?



Nesses 10 anos de atuação como nutricionista presencio de forma constante o desejo por uma mudança no corpo. Mas não qualquer mudança, “vou mudar a cor do meu cabelo” ou “vou usar lentes coloridas”, vejo um desejo desesperado pelo “corpo padrão”: corpo este escancarado nas mídias sociais, televisão, impressos, outdoors, e demais formas de publicidade. O que eu enxergo do lado de cá, como profissional da saúde mental, é um adoecimento psíquico no caminho dessa busca incansável. Desejar um corpo diferente teoricamente não causaria nenhum dano, o problema tem sido o quanto de saúde está sendo descartada nesse processo.


Se aprofundarmos em direção à causa, só existe esse desejo porque "inventaram" um padrão para comparação. Se todos os corpos fossem “normalizados”, talvez o cenário fosse diferente e também mais saudável. No cenário atual, o peso e forma corporal parecem ditar dignidade, merecimento e serem sinônimos de felicidade. Perceba que associada a essa imagem de perfeição temos como pano de fundo pessoas prósperas, bem-sucedidas, com carros importados na garagem, vista de paraíso ao fundo, afinal isso é o que vende. FELICIDADE é vendável e todo o pacote que supostamente a acompanha. Até porque se todo mundo começar a vender ACEITAÇÃO o que vamos comprar? Desejar? Sonhar?


Infelizmente o desejo por um corpo mais magro e esbelto é alimentado por uma sociedade que lucra com a insatisfação de vida das pessoas. O meu papel enquanto profissional da saúde é remar contra essa maré “doente” diariamente, e por isso te pergunto: POR QUÊ, PARA QUE e PARA QUEM você precisa emagrecer? Busco avaliar essa resposta em um set de consulta para que possamos embasar cientificamente se o desejo é genuíno ou criado em detrimento da imposição. Tá tudo bem querer mudar ou melhorar o seu corpo, mas essa mudança vai começar a partir do seu autoconhecimento, suas motivações.


A perda de peso nunca é o objetivo central de uma terapia nutricional, mas muito provavelmente será fruto de todo o trabalho árduo, ás vezes difícil e doloroso de primeiro pertencer a si e acolher todas as suas vulnerabilidades. Ter um corpo magro não é sinônimo de saúde, assim como um corpo gordo não significa falta de foco, força e fé. Somos seres tão complexos na nossa humanidade que usar recursos numéricos ou estéticos para medir o nosso ser, é como podar apenas os galhos de uma árvore. Precisamos urgentemente começar pela raiz, sendo assim: pela nossa profundidade de ser quem somos.



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