• Camila Vaz

Longas unhas dos pés



Recentemente, munida da desculpa de que precisava ajudar o pequeno comerciante local, porém carregando uma legítima vontade de bem gastar o meu dinheiro como eu mais gosto, fui até uma livraria local e tive uma ideia brilhante:


- Deixa eu ver todos os livros do Bukowski que você tem, por favor.


E foi assim que me reencontrei com o velho safado.


Para quem me conhece, e conhece um pouco de Bukowski, pode parecer um pouco contraditória a coleção de livros que quase enche toda uma prateleira que ostento na minha casa. Sua obra, quase que uma autobiografia difamatória, caótica e dispersa, pode ser difícil de digerir no ponto de vista da desvalorização feminina, todas elas representadas quase sempre como uma massa dismorfe e dispensável de histeria que normalmente só possuem seus próprios corpos como uma desconfortável moeda de troca. Não quero me aprofundar nesse mérito, nem entrar nessa discussão, porque além de não me sentir apta, o que me atrai em Bukowski é a facilidade com que ele escreve sobre seu tedioso cotidiano de uma maneira tão ácida que nos faz quase sentir acolhidos na nossa própria insignificância.


Vou citar um trecho que acho maravilhoso para expressar o que, com incrível dificuldade, eu estou tentando dizer:


“Deveria cortar minhas unhas dos pés. Meus pés estão me machucando há umas duas semanas. Sei que são as unhas dos pés, mas não consigo achar tempo para corta-las. Estou sempre atrasado, não tenho tempo para nada. Claro, se eu pudesse ficar longe do hipódromo teria tempo de sobra. Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando minha chegada a mim mesmo”.

Poderia eu achar menos do que genial, um homem que consegue resumir toda a angústia da humanidade moderna usando suas enormes unhas dos pés?


Se você é fã de uma pedicure e não consegue compreender a dificuldade, sugiro trocar as unhas por contas a pagar que precisam que se digite um infinito de números do código de barra. Troque as contas por um QR code que simplesmente não abre no seu celular, por uma impressora que nunca está pareada adequadamente com seu computador ou que sempre acaba a tinta em momentos importantes. Faça dessas unhas a necessidade de ter que informar seu endereço, cpf, título de eleitor pra ter centavos de desconto quando for comprar dipirona na farmácia. As longas unhas do pé são todas as senhas que você não consegue se lembrar porque são necessários cada vez mais etapas de verificação e car@cteres, núm3ros e, de preferência, alternando MaIusCuLaS e minúsculaS.


Os detalhes cotidianos nos engolem. Eles estão ai para nos proteger, para nos salvar, para facilitar nossa vida, para economizarmos tempo, e no final, estamos todos exaustos, atolados, sem energia, esgotados. Não existe senha de desbloqueio de criatividade, não existe momento artístico na fila do banco e provavelmente os melhores textos que eu jamais escreverei, ficarão pra sempre armazenados no infinito da minha cabeça na hora que estou quase pegando no sono e não tenho forças para registra-los em lugar nenhum.


A dificuldade da pequenez é infinita e nos cerca em insignificância o tempo todo. Fugir da trivialidade é exaustivo e as vezes, tudo o que eu quero é apenas fingir que estou ajudando o pequeno comerciante local.

Espero que Bukowski tenha sido enterrado com suas unhas bem compridas.


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