• Giuliana Galdino

O que comer durante a Pandemia?

Atualizado: Abr 1



Talvez essa tenha sido a pergunta mais recorrente por aqui desde que a Pandemia começou. A busca é de obter uma resposta pronta, para boa alimentação e fortalecimento da imunidade, a fim de proteção contra o temoroso vírus responsável por esse caos. Caos este, inclusive, psicológico, que estamos vivenciando (e suportando) há tantos dias.


Adoraria ter essa resposta na ponta da língua, mas não é tão simples assim. Como sempre ouso dizer, sem desmerecer a importância e valor de uma boa nutrição: “a nossa rotina alimentar é apenas uma parcela da nossa vida, que permeia todas as outras, ou até o inverso, todas as outras áreas da nossa vida esbarram na nossa alimentação".


O que escolhemos comer diariamente vai além do que se tem na panela; comer é um ato político, social, cultural e biopsicológico. Se dividirmos em classe social, região, país e até bairro vamos nos deparar com uma imensidão que vai além da fisiologia. Por isso ao olhar para os seus hábitos alimentares hoje, veja como uma continuação ou extensão de si mesmo, porque o tempo só existe no relógio e no calendário, já no relógio biológico o tempo está na somatória das nossas escolhas diárias e não se distingue ou divide em espaço/tempo e por isso inclusive ele não sabe distinguir se estamos em uma guerra ou em um colapso na saúde físico-mental ou, então, apenas seguindo ansiosamente a dieta de tal blogueira fitness. O que o corpo quer de nós é: constância, coerência e consciência.

Sobre os três “c’s” mencionado acima, não me refiro a quanto tempo durou a sua última orientação alimentar, até porque se ela acabou, muito provavelmente não atendeu a todos os aspectos integrantes do "comer". Se sua última orientação alimentar acabou entendo que, no fundo, você já sabia que não iria funcionar, mas precisou se dar mais essa chance de obter uma rápida resposta através de um papel ou milagre propagado na mídia, ao invés de se aprofundar em si com medo do que iria encontrar.


Neste contexto, há uns 3 anos mais ou menos, ouvi de uma pessoa próxima a mim: "Quando eu tiver coragem, eu agendo uma consulta com você". Sem entender, não sabia ao certo se a “coragem” que faltava era uma questão financeira ou a minha cara de "brava" (mais difícil que fosse essa alternativa), ela logo complementou: "Como sei que você não vai me dar um papel dizendo o que devo ou não comer (ou fazer), eu vou ter que encarar a mim mesma, e acho que não estou pronta para isso".


Com isso, sigo refletindo sobre a importância do autoconhecimento através do comportamento e hábitos individuais. Eu, como nutricionista, ajudo o paciente a perceber a responsabilidade e papel dele “na desordem da qual se queixa", como dizia Freud.


Escolher comer ou não comer tem o mesmo peso desde que essas escolhas venham exclusivamente de dentro de você. Parece óbvio, mas ainda tem muita gente presa na ditadura da beleza, em dietas mirabolantes ou em cápsulas mágicas. Hoje em dia é mais fácil engolir o que vem de fora do que o próprio dessabor de não dar conta de cuidar da sua própria alimentação e saúde.


Assim, como todo processo duradouro e fidedigno ao nosso eu, olhar para as nossas escolhas alimentares por outro ângulo, e ser capaz de identificar as questões mantenedoras de hábitos possivelmente "inadequados", não é tranquilo, rápidos e/ou confortável. Contudo, com ajuda profissional ética e comprometida com uma saúde integral é um processo possível e libertador. Desta forma, concluo o texto de hoje com um trecho escrito por um colega aqui do Blog que me deixou encantada:


"A relação do homem com os alimentos, tão banalizada em tempos de fast food, jejuns intermitentes e vitaminas milagrosas, deve ser reavaliada. É a partir da alimentação que nos conectamos com o mundo exterior (desde o seio materno até a última refeição do condenado à morte). A partir dela somos lembrados da nossa limitada condição humana, que necessita da natureza para existir. Isso sem falar nos mais tradicionais rituais associados à partilha do alimento, que podem tornar o “sentar-se à mesa” algo tão sagrado quanto um rito religioso. A alimentação nos faz mais humanos e isso é uma delícia!"


Texto ENTRADA de Rodrigo Falcão - clique aqui para ler!


Até logo!


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